O SOM E A FÚRIA


Um livro escrito para amigos conhecidos e desconhecidos

A Livraria Cultura disponibilizou o primeiro capítulo (até página 34) do meu livro no site deles. Clica no link ao lado e veja se o título deste post faz sentido.



Escrito por Nick Farewell às 18h14
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O Escafandro e a Borboleta

Um homem sofre um derrame. Com isso tem uma rara seqüela e só consegue mexer o olho esquerdo. O filme começa bem com uma premissa baseada na vida real. Por um momento achei que estava diante de uma obra-prima. Sobre o triunfo do espírito humano (que seja por bem ou por mal) e da vontade (também sem maniqueismo). Mas estava enganado. Se meu amigo Nilsão tivesse visto, diria que é um drama social da classe média alta. O existencialismo reduzido à poesia domesticada, alimentado à base de educação sentimental burguesa. Mas por que digo isso se sou um leigo na política e no assunto da estratificação social? Porque o filme é sobre a condição enfadonha de um homem social subitamente acometido a uma tragédia pessoal. Durante a exibição, o meu esperado afloramento da essência humana nunca vêm a tona. A transcendência de quem deveria compreender a estratagema da morte e a brevidade inócua da vida não aparece. Ou a revelação da verdadeira natureza da realidade fica oculta no personagem principal incapaz de se desprender do cotidiano mesmo adoentado. Na tela, há somente um niilismo mórbido ou história de um homem-cabresto. Afinal, ele não piscava somente o olho esquerdo mesmo quando estava sã?
Ironicamente tudo afunda como escafandro. Inclusive a dignidade de um homem disfarçado de egoísmo. Confesso que fui assistir por causa dos amigos que acharam o filme “maravilhoso”. Mas não pude evitar de brincar na saída do cinema que o filme afunda como o escafandro e eu deveria ter voado como borboleta para fugir. No fim da sessão, numa triste metáfora da última cena, o cinema desmoronava. O espírito humano sucumbia diante da compreensão rasa, não sobre o homem enfermo, e sim sobre uma sociedade enferma. Quem sofreu derrame foi o filme. E o olho piscava debilmente buscando a simpatia do público.

P.S.: Ou talvez o enferno seja eu. Criticar dessa maneira (ou entender mal) tão elogiado e eloquente filme.

Escrito por Nick Farewell às 12h13
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